Céu de Baunilha

Ouvimos o narrador dizer que Jules e Jim se conheceram, pela vontade de Jules de ingressar em um baile, do qual Jim tinha os ingressos. Mas a amizade mesmo, nasce (palavras do próprio narrador), enquanto Jim procura uma fantasia de escravo. A amizade então cresce, quando Jules observa o baile de estudantes de arte com um olhar meigo e cheio de amor.

Juntos, os amigos freqüentam todos e quaisquer lugares, com muita conversa, chamando um ao outro sempre com admiração, carinho e respeito. Se amam, então, Jules e Jim? Qualquer feminino que passe aos olhos de ambos é motivo de colocações e/ou comparações. Jules carrega fotos de ex-amantes, e de todas, ele fala. E quando escolhe específica, não a descreve com palavras. Prefere por desenhar a mesma. Jim (cultuando a obra ou o artista?) acaba querendo comprar a mesa, mas não pode, pois teria que comprar todo o conjunto.

Levar o conjunto todo, seria como, aceitar uma pessoa como ela é? O desdém que Jules e Jim expressam pelas mulheres é explícito. Nas fotos, quando Jules senta, para, mostrar e comentar, o desdém é ainda mais claro. O desenho então, que ele faz na mesa, não tem detalhes. Vê -se pela estética que é uma mulher, vê-se pela “técnica cubista” que é mulher, mas não tem fidelidade ao ser(como em obras renascentistas!). Vê-se preocupação com a realidade quando Jules tenta descrever, ou “escrever” uma mulher? Querem(ou precisam?) ambos, dar importância à imaginação?

Abre-se parênteses:

O título do filme se refere ao casal protagonista? Porque o nome do filme não é Jules, Jim e Catherine? Ou Jules e Catherine? Ou Jim e Catherine? Ou qualquer outro nome?A idolatria serve como injeção de desejo não só para o sexo oposto. Jules e Jim teriam feito um tácito acordo, de adorar a estátua em forma de mulher e, depois, de adorar a própria mulher? Se fosse isso, Catherine seria um pretexto ideal. Volúvel, disponível, temperamental… alguém que aceitou a relação a três, pendendo ora pra um lado, ora pra outro, mas sempre entre eles, como um elo. Eles a usam para que possam se manter próximos?

Quando Jim volta a Paris e encontra conhecidos na rua, nos bares, todos perguntam sobre Jules. Alguém lembra do terceiro membro do triângulo? Pois então, nem lembrada ela é. Mero pretexto? figurante de uma história onde os protagonistas já vem declarados desde o início? Quando Jim vai ao encontro de Catherine após o mal-entendido das cartas, Jules o busca na estação e só conta que Catherina tinha sumido depois de estarem dentro de casa. Teria ele tido medo de revelar a verdade antes e correr o risco de ver Jim embarcando imediatamente no trem de volta? Jules e Jim usam uma imagem personificada em carne e osso para que possam viver este amor de forma velada? E se caso o mundo (ou suas consciências) os confrontasse sobre o que é aquilo que estão sentindo? Sacariam da resposta que está pronta? “olha, mundo/consciência, nós só vivemos juntos porque amamos a mesma mulher!”

Fecha-se parênteses.

Em certo momento, Jules se diverte falando sobre uma frase aonde diz que a mulher não teria o que conversar com Deus. Se Jules coloca a mulher em nivel inferior ao masculino, porque ele mesmo, continua a persegui-las, deseja-las, imagina-las? E Deus teria o que conversar com os masculinos? E e se o ser feminino não teria o que conversar com Deus, o que teria para conversar com os homens? Jules entende ele, homem, ser mortal? Ou imagina-se tão conquistador ao ponto de ultrapassar a altura divina, para lá-do-alto-céu, dar-se o luxo de olhar para baixo e cortejar o sexo feminino?

Jules e Jim, apaixonam-se pelo sorriso de uma mulher, porém estátua. Perdidamente fixados pela imagem daquela pedra, eles decidem não por esculpi-la para tentar encontrar do que ela é feita por dentro. Eles passam reto(como se isso não trouxesse também, conseqüencias), para encontrar o mesmo rosto em um ser humano do sexo feminino. E encontram?

Catherine não tem sobrenome senão os que a própria relação com os demais implica: Mentiras? não, o sobrenome de Catherine não chama-se mentiras. Mentiras nem existem no universo de Catherine. Elas são queimadas com vitríolo. Catherine Estranha, seria esse o sobrenome da dama? aos olhos de Jim, estranha, ela é chamada. Jules, “o apaixonado”, explica (defende?): o pai é nobre, a mãe, não. Catherine não se parece com a estátua. Queriam Jules e Jim estar diante de um ser, que pensa, respira, fala…alías queriam eles, estar diante de uma mulher que fala o tanto quanto eles? Catherine não é feita de pedra (eles percebem?).

Catherine se mexe. Corre. Foge? Correm os três então juntos. Juntos, os homens? Em um dos momentos aonde eles mais se divertem, é quando Catherine se faz-masculino e passeia pelas ruas de Paris. A cena em que correm, sem trilha, com som. O som? a respiração dos três, como se estivessem transando, os três. Os três? Na contagem de Jules, ela dispara no número dois. Três é demais? Catherine chega em primeiro. Seu grito então, seria o gozo? por vencer? ela trapaceia. Ganha quem trapaceia? quem chega na frente é o vitorioso? quando acaba a guerra, e Jim visita Jules, Jules diz a Jim: “- Você ganhou a guerra então!” Jim o olha e responde: “- Preferia ter ganho isso!” referindo-se a Catherine e Sabine, e ele. Ou seja: familia.

Não teriam sobrenomes os personagens, por alguma razão? Seria por eles não terem familia? sim, sabemos que eles tem, mas não são apresentadas. E porque? “Jules et Jim” é uma ode à desconstrução da família (ou à construção de uma nova)? Vê-se família (ou tentativa de) na relação de Jules, Jim e Catherine: a mãe, os filhos. A mulher, os maridos. O pai, a filha. Assim como na família de “Jules et Jim”, em nossas, há confusão entre os integrantes, personagens e seus nomes. A cada desabafo, diálogo, análise, poesia, rascunho, desconstruimo-nos, tentando uma (nova?) construção. E uma nova família, pode?

Jules e Jim (os masculinos) se encarregam de que “Jules et Jim” seja uma ode ao feminino. Seria ao feminino que primeiro conhecemos? Qual ser que diante, e adiante (às vezes eternamente) ficamos a olhar como uma escultura enigmática? Como uma rainha, como a força da natureza? Quem é que nos beija quente em nossa testa ardente? Não é a voz da mãe que cantada em nossos inocentes orestes, fascina? fatal, mulher fatal: e isso não é a tagline de qualquer mãe? Não é com a mãe, que mesmo a girar, continuamos abraçados(presos!)? Então, Catherine cantando “O Turbilhão” é a representação da mãe na sala apresentando uma cantiga aos seus filhos?

É através de catherine que sabemos da existência da figura materna. A mãe de Jules, que só conhecemos através do olhar de Catherine. A mãe de Catherine, que só sabemos ao olhar de Jules, quando este justifica (a Jim) a estranheza da mulher pós-estátua. E Catherine própria, uma mãe que, como toda figura (somente imagem?) materna, não quer ser mal-julgada (o problema não é o julgamento em si, mas a condenação). Em diálogo entre Jim e Catherine surge:

Jim: – Quero te ouvir!

Catherine: – Para que? para me julgar?

Jim: – Deus me livre!

Nesse diálogo, vê-se o medo da condenação(prisão!) e a vontade pela liberdade (via-crucis!?)

Jules e Jim seriam irmãos buscando a liberdade dessa imagem materna? A caminhada de Jules ao fim pode ser vista como um filho, leve e solto, livre, rumo a sua independente trilha? No começo do filme, em um bar, uma mulher passa acompanhada. Jules levanta-se, Jim o impede de prosseguir. Jules deixa claro que não está apaixonado, explicando: “- Ela era uma mãe e uma filha para mim!”. Por que Jules e Jim se apaixonam por Catherine? O que ela de fato representava para eles? “Uma mãe para nós” ? Ambos precisavam se prender a essa imagem para depois se livrarem da mesma? Pois, como se libertar do que não os prende? E não passamos a vida a querer tirar a imagem representativa dos nossos pais, em nós? Catherine, a mãe(-natureza?), ao se suicidar, deixa Sabine órfã? Não, ela tem Jules, o pai. E sozinho, alguém pode ficar?

Jules em desabafo a Jim diz que Catherine (a mulher real) nem é tão encantadora assim, nem é tão bonita. Nem inteligente, nem sincera. Nem apaixonada! Então o que prendia os dois em Catherine? o amor próprio que ela parecia ter? Jules e Jim, cortejando, idolatrando um ao outro, sendo eles semelhantes (iguais?), sendo do mesmo gênero(homens), não é uma forma tentarem amar a si mesmos? precisamos de uma confirmação que só o olhar alheio pode dar? aprender a nos amar pelos olhos do outro? E dá certo isso? Catherine parece auto-suficiente. É isso que os atrai? Mas se Catherine é auto-suficiente, porque precisaria tanto da atenção de Jules e Jim? Quem ama a si mesmo, sente-se sozinho? será que o amor próprio nos basta?

Adoramo-nos como imagem. Cultuamo-nos ao espelho, como se só estivesse mesmo faltando a reza: meias, calças, calcinhas, cuecas, saias, camisas, blusas, maquiagem, frase direta: “- Estou lindo(a)!”… amém! Amar a si, é contemplar nossa própria imagem?

“Jules et Jim” é uma obra épica sobre o fascínio pela imagem, e logo, um grito de liberdade(para todos que livram-se de tal fascínio). Claro que não tem a metafisica de filmes(vendidos como) “auto ajuda”, por exemplo “O Segredo”. Mas está ali, sem dicas, ao mesmo tempo com todas(subliminares ao máximo, escancaradas, sem medida), o caminho à liberdade. E esse caminho, é fácil seguir? No filme, Jules se liberta ao matar tudo o que dentro dele, representava prisão. Tanto Catherine quanto Jim prendiam Jules. Ao menos diante dos caixões, temos em sua expressão um homem, sem emoção (a família lhe sugou toda?). E em sua caminhada (marcha?) após o enterro, é de alívio a expressão do seu caminhar, talvez por não ter mais que definir e/ou desafiar o limite do que lhe era possível conviver com seus amigos-amantes-familiares.

Sem deuses ou diabos. Sem psicologia. Como Jules fala: “metafisica”. Além do físico. Ultrapassa a mente(passando por ela a todo momento), chegamos ao mistério. “Jules et Jim” é filosofia. São quase duas horas de “saber”, em diálogos. Muita conversa. N mentiras. Desabafos. Fadigas. Insatisfação. Desejo sexual reprimido. Crenças, cultos, religião pura. A adoração está em cada tomada do filme. Adoração pelo amor? Em outro diálogo entre Jim e Catherine:

“- Você tentou inventar o amor! mas os pioneiros não podem ser egoistas!”.

“Os pioneiros” Então, nesse diálogo está a declaração de Jim, e o consentimento de Catherine à máxima de Shakespeare? “Amor não se dobra à obstáculos!” No diálogo dos dois, encontra-se a clara-evidência? “Não nos amamos!(?)” , “Não amamos!(?), “Temos medo de dar certo… de amar e sermos amados(?)”.

A linguagem(imagem!) cinematográfica(leia-se tomadas, interpretações, montagem, etc) da época(leia-se cinema europeu dos anos 60), deixa margem para um distanciamento do qual podemos analisar “Jules et Jim”. E análise, pode?

Menos especializado(?), mais versátil(?):

Fin

O Filme fora daqui:

O Roteiro, O Romance

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2 Responses to Céu de Baunilha

  1. Pri says:

    Gosto do jeito como tu escreves. As escritas, tu sabes, me tomam inteiramente. E eis uma bela forma de indicação! Verei em breve e compararei as impressões.

    Beijo grandão, Mau!

  2. Vittoria Sampaio says:

    Meu nome é Vittoria e tenho 12 anos e adoro cinema acho os seu videos demais, tenho praticamente o mesmo gosto pra filmes que você tem

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